Internet: por todos e pra todos?

A medida em que a internet foi se popularizando no mundo, acreditou-se que ela facilitaria a democratização do conhecimento e nos aproximaria uns dos outros, independente de nossa localização. De fato a internet encurtou distâncias e deu voz a quem, no passado, não tinha. Mas ainda nos deparamos com inúmera barreiras, sendo duas delas bem expressivas: A atual centralização da internet por um pequeno grupo de empresas gigantescas e o fato de o acesso à rede ser uma realidade apenas para quem tem recursos financeiros

O problema da centralização da internet

Para explicar esse primeiro aspecto, vamos usar um exemplo: ao pesquisar um assunto no Google, a ferramenta decide quais páginas serão exibidas sobre esse assunto, ou seja, quais perspectivas e narrativas serão contadas. O que acontece na prática é que alguns sites e conteúdos (especialmente aqueles que investem em propaganda na plataforma) vão ter muito mais acesso do que outros.

Nas redes sociais um efeito parecido também acontece: o conteúdo que você tem acesso é selecionado conforme o seu tipo de engajamento naquela rede. Por exemplo: se você costuma seguir páginas e pessoas que falam sobre alimentação saudável, a tendência é que os anúncios reproduzam esses interesses. A lógica por trás disso é bem simples: manter você o máximo de tempo possível interagindo com a rede social.

Mas porque e pra que? É assim que empresas como Facebook (dona também do Instagram) ganham dinheiro. O modelo de negócio funciona de maneira análoga a uma isca de peixe: Eles mapeiam os interesses dos usuários e exibem conteúdos atraentes para causar uma experiência positiva e prazerosa e mantê-los engajados. Quanto mais tempo você fica, mais anúncios eles conseguem incluir nessa experiência e, consequentemente, mais dinheiro ganham.

E isso pode contribuir para que se crie visões distorcidas de realidade como quando, por exemplo, você pensa e sente que todo mundo está falando sobre determinado assunto ou tem uma determinada opinião.

As buscas do Google e as redes sociais do Mark Zuckerberg nos trouxeram inúmeros benefícios e praticidades, isso é inegável. O que estamos questionando aqui é termos duas empresas ditando o conteúdo de grande parte da internet. E com isso vemos pesquisas, como essa feita pela Mozilla, que mostra que 55% dos brasileiros acreditam que o Facebook é a internet

O problema do acesso à internet

No Brasil, 25% da população não tem acesso à internet e no mundo esse número é bem maior: 49% da população mundial não tem acesso à internet. Democratizar o acesso é um interesse tanto nosso quanto de grandes empresas de tecnologia, pois quanto mais pessoas estão dentro dessas redes, maior o valor que eles podem cobrar por anúncios.

O Facebook, por exemplo, criou uma “ação filantrópica” para levar internet à locais da Índia até então desconectados. Eles pagariam por toda a estrutura de internet PORÉM as pessoas só teriam permissão para acessar um número restrito (26) de sites, escolhidos pelo próprio Facebook. A estrutura estaria lá, mas as pessoas não poderiam estudar, ler portais de notícias, procurar emprego ou trocar email com familiares. Elas só poderiam acessar sites que, de alguma forma, trariam lucro pra empresa. Essa iniciativa causou grande comoção na população da Índia e do mundo, por ferir o princípio de neutralidade de rede (segura aí que falaremos sobre isso em outro texto), e foi banido – em grande parte graças à pressão popular.

Para saber mais sobre o caso desse projeto, que se chamava internet.org (até o nome dá a entender que o Facebook é a internet, né?) e depois passou a se chamar Free Basics, recomendamos a leitura desse artigo super completo do The Guardian. Existiram também tentativas de trazer essa iniciativa pro Brasil, com direito a foto da Dilma abraçada no Mark Zuckerberg e tudo. 

Vale lembrar que a internet da forma que conhecemos hoje já completou 30 anos e ainda temos quase metade do mundo excluído dessa rede, e, se depender das gigantes de tecnologia, as pessoas só terão acesso se isso gerar lucro. E é aí que entra a importância de pressionar os governos para que o direito ao acesso irrestrito à internet seja garantido a todas as pessoas. 

O que se esperava com a criação da World Wide Web (o famoso www)

Bom, mas tudo bem se você não nos der muita credibilidade: afinal, quem somos nós na fila do pão né? Então achamos que valia a pena falar sobre o Tim Berners-Lee. O Tim (intímas kkkkk) foi o criador da World Wide Web, o famoso www. Foi através do trabalho dele que a internet passou a ser acessível pra uso comercial e passou a fazer parte da vida de uma grande parcela da população.

O Tim Berners-Lee criou o www, mas ele não é o dono da internet. Isso porque ele nunca quis patentear a internet. Ele queria que a internet fosse livre e aberta. Que servisse para que o conhecimento fosse disseminado por todos e pra todos. Inclusive, seu intuito inicial era ajudar cientistas a se conectar e assim colaborarem entre eles. “This is for everyone” (isso é para todo mundo), é a frase que ele costuma usar e que inclusive foi usada por ele na sua participação na abertura das Olímpiadas em Londres. 

E aí que a World Wide Web completou 30 anos em 2019, e nesse mesmo período o Tim veio a público falar sobre as inúmeras maneiras em que a internet falhou. 

“É compreensível que muitas pessoas sintam medo e não tenham certeza de que a internet é realmente uma força para o bem. Mas dado o quanto a web mudou nos últimos 30 anos, seria derrotista e sem imaginação assumir que a web como conhecemos hoje não possa ser mudada para melhor nos próximos 30 anos. Se desistirmos de construir uma internet melhor agora, então não será a internet que terá falhado conosco. Nós teremos falhado com a internet. ”
(tradução livre)

O que fazer?

Junto dessas declarações, o Tim Berners-Lee lançou um novo projeto, que visa re-descentralizar a internet, ou seja, tirar o fluxo de informação da mão das grandes empresas e redistribuí-lo. Pra isso ele criou a Solid:

“A Solid muda o modelo atual, em que os usuários precisam entregar dados pessoais a gigantes digitais em troca de valor percebido. Como todos nós descobrimos, isso não tem sido feito com nossos interesses em mente. Solid é como evoluímos a web para restaurar o equilíbrio – dando a cada um de nós o controle total sobre os dados, pessoais ou não, de uma forma revolucionária.”
(tradução livre, texto original está aqui).

Além desse projeto do Tim Berners Lee, muitas outras iniciativas nesse sentido estão rolando. Se essa conversa sobre democratizar e descentralizar a internet te interessou, aqui vão duas dicas de coisas que você pode fazer agora:

  1. Testar o duck duck go. Um serviço de busca que prioriza a sua privacidade . Talvez você possa trocar o google por ele por uma semana e ver o que você acha 🙂  
  2. Dar uma olhada nas inúmeras iniciativas e projetos com o objetivo de descentralizar a web. No Redecentralize você encontra inúmeras informações sobre isso. E, caso esteja familiarizado com o GitHub, aqui você pode inclusive buscar formas de contribuir.  

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